NATUREZA-MORTA, CLARICE LISPECTOR E A ROSA

ADRIAEN COORTE. Three Medlars and a Butterfly.

Quando lemos textos literários de C.L., logo, percebemos que há uma abundância da vida doméstica e cotidiana. Suas obras literárias relatam, na maioria dos casos, cenas sobre a trajetória de uma mulher indo ao mercado, um homem jantando, alguém arrumando um vaso de flores e etc.

Essa representação da vida cotidiana pode ser comparada a um tema específico do universo da pintura: a natureza-morta. Através da história da pintura, esse tema se desenvolveu de forma complexa, dividindo-se em subgêneros e (alguns até viraram gêneros específicos como a ilustração da botânica), pode-se pensar a natureza-morta como a representação de itens domésticos como: a fruta, os sapatos, a garrafa, pratos, vinhos e etc. Contudo, durante o renascimento, a natureza-morta também serviu a propósito científico, como se fosse uma espécie de museu de grandes curiosidades, pintavam-se animais mortos, a anatomia dos fetos, cadáveres, plantas.

Com o desenvolvimento da fotografia e de outras tecnologias 3D e 2D, a ideia de natureza-morta se amplificou, o uso não é somente com o propósito de entender e descrever os elementos da vida ao redor, observa-se, então, o uso simbólico da realidade. Pode-se representar objetos estranhos, uma geladeira aberta, robôs e, portanto, abrindo a possibilidade de ampliar a percepção humana sobre o que existe ao redor de nossa vida doméstica.

Moser estabelece uma relação entre a pintura de Adrien Coorte e a poesia de Basho. Ele escolhe a pintura Three Medlars and a Butterfly, produzida entre os anos 1693 e 1695. Analisando a relação dessa pintura com uma das obras de arte desse poeta oriental, um poema que foi muito comentado ao longo de anos, que apresentava apenas três linhas:

The old pond , Ah!        

A frog jumps in:

The water’s sound!

Segundo (MOSER, 2020), o que se destaca nessas duas obras são a aparente simplicidade e a seleção dos temas . Adrien Coorte representa três frutas e uma borboleta flutuando, gentilmente, acima delas. Ao fundo, cores mais escuras, o cenário ressoa uma sensação etérea. Para Basho, influenciado pelo Zen-Budismo, a iluminação não está além de nós, está presente na vida cotidiana. Para Moser, os artistas europeus do período medieval costumavam apresentar obras com fundos pintados de ouro, porque a iluminação não estava aqui, estava no reino dos céus. Essa ideia, para o Zen-Budismo, não faz sentido, pois a iluminação não está acima de nós, mas entre nós. Moser estabelece uma relação entre o quadro Three Medlars and a Butterfly e o poema de Basho. Há um intuito de demonstrar que nesse quadro não há somente uma descrição da realidade, mas, uma tentativa simbólica de representar suas vidas cotidianas.

“Histórias das coisas”

Ângela, personagem do livro O sopro de vida, faz uma revelação durante o seu processo de escrita. O autor, que desenvolveu a personagem Ângela, trata esse desejo com cinismo e deboche, afirmando que a Ângela não consegue terminar nenhum trabalho, não tem disciplina e ela é uma pseudoescritora. Por isso, ela não conseguirá realizar esse projeto. A ideia desse projeto era contar a história da cadeira, do ovo, das frutas, dos lustres e dos sapatos.

Atenta-se para o fato de não somente descrever a vida doméstica, usando noções da poética realista. Há uma tentativa de elaborar uma literatura da vida doméstica para além de uma mera descrição de personagens, definidos por seus ambientes, a cadeira não é só uma cadeira nesses ambientes. É uma extensão da consciência das personagens. Laura amplia a sua percepção sobre posse e beleza, após o seu contato com uma rosa. A rosa é mais do que a rosa, representada no texto, é também a existência da Laura.

Nunca vi rosas tão bonitas, pensou com curiosidade. E como se não tivesse acabado de pensar exatamente isso, vagamente consciente de que acabara de pensar exatamente isso e passando rápida por cima do embaraço em se reconhecer um pouco cacete, pensou numa etapa mais nova de surpresa: ‘sinceramente, nunca vi rosas tão bonitas’. Olhou-as com atenção. Mas a atenção não podia se manter muito tempo como simples atenção, transformava-se logo em suave prazer, e ela não conseguia mais analisar as rosas, era obrigada a interromper-se com a mesma exclamação de curiosidade submissa: como são lindas!  (LISPECTOR, Laços de Família , 1998).

Laura é uma esposa asseada, que como o narrador a descreve, gosta de métodos, por isso, adorar limpar e organizar a casa. O narrador faz um paralelo com a sua casa e uma sala de espera. Essa impessoalidade que está no ambiente doméstico de Laura, também é a própria Laura. Quando as rosas aparecem no conto, ela ganha uma dimensão etérea, capaz de quebrar a impessoalidade do ambiente doméstico de Laura. A ponto da personagem, não ter a capacidade de aceitar as rosas como parte daquele espaço, porém, assim também, estabelece o conflito entre ter as rosas ou dá-las para Carlota.  

Durante o desenvolvimento do conto, Laura passa pelo conflito de ter ou dar as rosas, depois, ela desejar ser uma coisa bonita. O narrador passa pela descrição do ambiente doméstico e da inclusão da rosa dentro desse contexto. A rosa aqui não é só objeto que pertence ao espaço, ela está de passagem, quase que pairando sobre o mundo de Laura. O narrado utiliza de ferramentas de descrição da realidade (tal como uma natureza-morta) e, no fim, termina com a imagem de Laura sentada no sofá, também usando de um ferramental da pintura, usando o tema do retrato.

Poder-se-á pensar que os temas de pintura: natureza-morta e retrato, estão presente na literatura clariciana, como forma de uso simbólico. Os usos domésticos do contexto de Laura é um extensão da vida da personagem, de tal forma, que se pode fazer paralelos filosóficos sobre a sua condição humana. A rosa não existe na narrativa como algo meramente descritivo, usando a poética do realismo. Ela está para além da rosa.

Referência bibliográfica:

LISPECTOR, Clarice. “A imitação da Rosa” in Laços de Família: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

NATUREZA-MORTA . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo360/natureza-morta&gt;. Acesso em: 21 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia.

MOSER, Benjamin. Art is the audacity of still life. Disponível em: <https://bashosroad.outlawpoetry.com/benjamin-moser-art-is-the-audacity-of-still-life/benjamin-moser/haiku/>. Acesso em: 21 de Abr. 2020.

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